Reportagem Especial | Quando o baile vira trabalho: a economia possível da Cena Ballroom em São Luís
por Aline Vitória, Geovanna Selma, Luis Lima e Vitoria Campos
Foto de capa: Vitoria Campos
A Cena Ballroom cresce em São Luís e mobiliza artistas trans e LGBTQIAPN+ em torno de bailes, performances e projetos culturais. Mesmo com poucos recursos e pouco apoio institucional, integrantes da comunidade utilizam a estética, a organização de eventos e a participação em editais como formas de construir visibilidade profissional e oportunidades de trabalho.
Inspirada em um movimento criado nos Estados Unidos e difundido em diversas cidades do Brasil, a Ballroom ludovicense ainda é recente, mas já articula redes de apoio, produção cultural e estratégias de geração de renda dentro e fora da pista.
A Cena Ballroom surgiu nos Estados Unidos no século XX, a partir de comunidades negras, latinas e LGBTQIAPN+, especialmente travestis e pessoas trans que enfrentavam exclusão familiar e dificuldades de acesso ao mercado de trabalho. Os bailes passaram a funcionar como espaços de expressão artística, pertencimento e afirmação identitária. Nesses eventos, participantes competem em categorias que valorizam dança, performance, moda e presença cênica (veja o vídeo abaixo).
Com o tempo, o movimento se espalhou para diferentes países e passou a influenciar áreas como moda, música e audiovisual. No Brasil, a cena se fortaleceu principalmente a partir da década de 2010, impulsionada pelas redes sociais, por coletivos culturais e pela circulação de referências da cultura Ballroom.
Em São Luís, a cena ainda se estrutura, mas já reúne artistas, performers e produtores culturais. Os bailes funcionam como espaços de encontro, experimentação artística e construção de redes comunitárias. Ao mesmo tempo, a Ballroom também se conecta com estratégias de sobrevivência econômica, especialmente para pessoas trans, que enfrentam altos índices de exclusão do mercado formal.
Dentro da cultura Ballroom, as Houses funcionam como coletivos ou famílias escolhidas que reúnem artistas e performers. Cada House possui lideranças conhecidas como Mother ou Father, responsáveis por orientar integrantes, organizar participações em bailes e fortalecer a presença da casa na cena.
É o caso de Dani Diamond, Mother da Casa Diamond em São Luís. Para ela, o empreendedorismo dentro da Ballroom está ligado à construção de imagem e à busca por oportunidades fora da própria cena. “Enquanto mãe da Casa de Diamantes, nossa forma de empreender com a cena é através de editais, para além do investimento financeiro, o investimento na estética, em cada apresentação ou entrada nos bailes, para que a nossa imagem seja projetada e possamos ter retornos como trabalhos ou contratações para performances”, afirma.
O contexto econômico também impacta diretamente a comunidade. A estética de luxo e glamour faz parte da linguagem da Ballroom, mas muitas vezes contrasta com a realidade financeira de seus integrantes. “Essa comunidade já é muito marginalizada até em um cenário economicamente ok. As situações em que as pessoas dentro da comunidade se encontram são de transparecer riqueza, ser e estar caro, vestir roupas que pareçam caras mas sem o dinheiro”, explica Dani.
A produção dos bailes também exige organização e recursos. Mesmo sendo eventos culturais importantes para a comunidade, muitas vezes não contam com financiamento suficiente. “Enquanto produtora, é muito importante termos preparo financeiro para lidar com a organização de um baile e como podemos empreender dentro dele. Mas é muito comum que dentro dos bailes, quem está produzindo acabar precisando tirar do próprio bolso para que o baile seja realizado da melhor forma”, relata.
Segundo Dani, na cena maranhense o retorno financeiro direto ainda é raro. A participação nos bailes funciona mais como vitrine artística e possibilidade de projeção profissional. “Eu não caminho num baile para ganhar e sim para fazer e ser o momento, mais uma vez me projetando para além da cena”, afirma.
Os figurinos e adereços utilizados nas performances também fazem parte desse investimento artístico. Muitos artistas produzem as próprias peças ou reutilizam materiais para criar novas composições. “Cada roupa, figurino, adereço dentro da ballroom pode se transformar em algo novo ou pode servir como acervo”, explica.
Outro desafio está na falta de apoio institucional e patrocínio privado para a realização dos eventos. “Infelizmente ainda é muito escasso sermos procuradas por marcas ou empresas para custear a realização dos bailes”, diz Dani. Mesmo diante das dificuldades, integrantes da comunidade seguem organizando bailes, participando de editais culturais e criando estratégias coletivas para manter a cena ativa na capital maranhense.
O Programa Plural como transformador social
Em meio a um cenário de preconceito e desigualdades, o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE) atua na desconstrução desse contexto por meio da realização do Programa Plural, uma iniciativa que proporciona um ambiente de acolhimento, reconhecimento e capacitação técnica para mulheres, idosos, pessoas com deficiência (PcD), povos originários, comunidades tradicionais e LGBTQIAPN+.
Sendo uma necessidade para sobrevivência, o empreendedorismo de pessoas transexuais e travestis inicia com o desejo de transformar realidades, inovar o meio social e evidenciar a cultura de um público que enfrenta diversas discriminações em um corpo social que se autodenomina desenvolvido, mas suas ações e discursos desmentem sua suposta evolução. Nesse sentido, é visível a relevância do Plural como um transformador social de um grupo que cotidianamente luta pela sobrevivência.
O Programa está presente no Planejamento Estratégico 2024-2027, no qual o Sistema Sebrae aprovou uma Política de Diversidade, Equidade, Inclusão e Pertencimento (Resolução Direx nº 454/2023). A gestora do Plural – MA, Reijane Almeida, afirmou a aplicação da atividade em todos os estados brasileiros, seguindo a realidade de cada um:
“O Programa Plural é um programa nacional. O Sebrae Nacional o criou e todas as 27 Unidades Federativas (UFs) aderiram. Cada estado tem uma forma de atuação e, por ser um programa novo, vários estados estão formatando as ações de acordo com a sua realidade. Hoje já temos o grupo das mulheres estruturado, mas também temos ensaiado ações com indígenas, quilombolas e grupos de PCDs, diversificando a atuação”, compartilhou.
Promovendo formalização jurídica, permitindo, por exemplo, o uso do nome social no registro do Microempreendedor Individual (MEI) – direito garantido pelo Decreto 8727/2016, o Plural proporciona ainda o apoio estrutural por meio de capacitações, mentorias, apoio técnico e acesso a linhas de crédito para negócios variados. Além de seguir as diretrizes dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), mediante a conexão com o Mercado de Trabalho, fortalecendo a economia, a tecnologia e a sustentabilidade.
“A formalização traz maior visibilidade para o empreendedor, ajudando-o a se perceber como empresário. Além das responsabilidades, ela oferece a oportunidade de participar de editais, emitir notas fiscais e ter mais representatividade em concorrências. Ser informal é como ser invisível, já a formalização dá respaldo, credibilidade perante o mercado e, embora traga ônus e bônus, garante uma base sólida dentro do programa”, ressaltou Reijane Almeida.

Como forma de aproximar o grupo LGBTQIAPN+, O Programa planeja trazer representatividade para a iniciativa como estratégia de incentivo para pessoas transexuais e travestis, visando fortalecer o interesse na participação e na formalização do negócio. Em muitos casos, o empreendedorismo não é uma escolha de carreira, mas a única alternativa diante de um contexto de exclusão. Moda, beleza e gastronomia são as áreas mais investidas por esse grupo, que une suas habilidades à necessidade de empreender.
Essa autonomia financeira é uma ferramenta de resistência e existência. No contexto do Maranhão, a cena Ballroom ainda não faz parte do Programa Plural, mas unir as estratégias da comunidade LGBTQIAPN+ com as oportunidades oferecidas pelo Sebrae pode se tornar uma política social indispensável. A cultura Ballroom, que historicamente nasce como um espaço de acolhimento, performance e sobrevivência, possui um potencial criativo e de liderança que, ao ser potencializado por tais ferramentas de gestão, pode transformar coletivos em negócios sustentáveis.









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