Reportagem Especial | Como as cachaças artesanais ajudam a manter vivo o Mercado das Tulhas
Tradição familiar, turismo e pequenos negócios transformam bebidas típicas em fonte de renda para comerciantes e produtores maranhenses
por Maria Ruth Sousa
O som das conversas se mistura ao tilintar das garrafas e ao aroma das ervas espalhadas pelos corredores do Mercado das Tulhas. No coração da Praia Grande, no Centro Histórico de São Luís, um dos espaços comerciais mais tradicionais do Maranhão mantém viva uma atividade que atravessa gerações: a venda de cachaças artesanais produzidas em diferentes municípios do Estado.
Entre turistas curiosos e clientes antigos, comerciantes transformam tradição em sustento. Mais do que uma bebida típica, as cachaças comercializadas no mercado movimentam uma cadeia de pequenos negócios que envolve produtores rurais, transportadores, comerciantes e famílias que dependem diretamente dessa atividade para gerar renda.
Construído no século XIX, o Mercado das Tulhas surgiu como um importante centro de abastecimento da capital maranhense. Ao longo dos anos, acompanhou as transformações urbanas de São Luís sem perder sua essência: ser um espaço onde a cultura, a gastronomia e o empreendedorismo local se encontram. Hoje, entre camarões secos, castanhas, ervas medicinais e artesanato, as garrafas de cachaças, licores e da tradicional tiquira ocupam lugar de destaque nas prateleiras.

Com mais de 200 anos de história, o Mercado das Tulhas integra o conjunto arquitetônico do Centro Histórico de São Luís, reconhecido pela Unesco como Patrimônio Cultural da Humanidade. Ao longo de mais de dois séculos, o espaço preservou sua vocação comercial e permanece como um dos principais pontos de venda de produtos maranhenses, conectando produtores, comerciantes e consumidores em um mesmo ambiente.
É nesse cenário que trabalha Raimundo Martins, conhecido pelos frequentadores simplesmente como Seu Corintiano. Filho de comerciante, ele cresceu acompanhando a movimentação do mercado e herdou do pai não apenas o box onde trabalha, mas também o conhecimento sobre os produtos que comercializa.
Cercado por dezenas de garrafas vindas de cidades como Santo Antônio dos Lopes, Viana e outros municípios maranhenses, ele faz questão de valorizar a origem das bebidas que vende. Para ele, cada produto carrega a história de quem o produz e a identidade de uma região.
“Eu compro direto dos produtores. É uma cachaça legítima, da terra, sem mistura. Conheço quem faz, sei de onde vem e como é produzida. O cliente percebe essa diferença. Tem gente que vem aqui todo ano e faz questão de levar a mesma bebida porque sabe da qualidade e da tradição que ela representa”, afirma.

A credibilidade construída ao longo dos anos se reflete na clientela. Enquanto turistas procuram levar para casa um pouco da cultura maranhense, muitos consumidores locais retornam ao mercado em busca de sabores que remetem à infância, às festas populares e às histórias de família.
A poucos metros dali está Júlio César, outro personagem cuja trajetória se confunde com a do Mercado das Tulhas. Filho de comerciantes, ele cresceu ouvindo relatos sobre a antiga Feira da Praia Grande e acompanhando o cotidiano dos vendedores que ajudaram a construir a identidade do espaço.
Hoje, é ele quem dá continuidade a essa história.
“O mercado faz parte da nossa vida. A gente cresceu aqui dentro, vendo nossos pais trabalharem e aprendendo a lidar com as pessoas. Quem compra uma garrafa não leva só uma bebida. Leva uma história, uma tradição e um pedaço da cultura do Maranhão. É isso que faz o Mercado das Tulhas continuar sendo especial”, destaca.

Para Júlio César, cada venda representa muito mais do que uma transação comercial. Muitas das bebidas comercializadas no Mercado das Tulhas são produzidas por pequenos alambiques familiares espalhados pelo interior do estado, negócios que dependem da valorização dos produtos regionais para continuar existindo.
A dinâmica observada no Mercado das Tulhas reflete um cenário comum em diversas regiões do país: a força dos pequenos negócios na geração de renda e na preservação de tradições locais.
No mercado, a comercialização das cachaças artesanais movimenta uma cadeia produtiva que começa no interior do Maranhão, passa pelos alambiques familiares e chega aos boxes instalados no Centro Histórico de São Luís, fortalecendo a economia regional e valorizando produtos ligados à identidade cultural maranhense.
É uma cadeia produtiva que começa no campo e termina nas mãos dos consumidores. Agricultores cultivam a matéria-prima, produtores artesanais preservam métodos tradicionais de fabricação e comerciantes fazem a ponte entre esses produtos e o público que visita o Centro Histórico.
Além da importância econômica, as cachaças artesanais ajudam a preservar parte da identidade cultural maranhense. Nas prateleiras convivem bebidas envelhecidas em madeira, receitas produzidas com ervas e especiarias regionais, licores de frutas típicas e a tradicional tiquira.

Enquanto os visitantes observam as garrafas coloridas e pedem explicações sobre os sabores mais curiosos, comerciantes como Seu Corintiano e Júlio César seguem desempenhando um papel que vai além da venda. Eles atuam como guardiões de conhecimentos transmitidos entre gerações e ajudam a manter viva uma atividade que faz parte da história econômica e cultural de São Luís.
Em uma época marcada pelo avanço das grandes redes comerciais e pela padronização dos produtos, os corredores do Mercado das Tulhas continuam oferecendo algo difícil de encontrar em outros lugares: autenticidade.
Mais do que um ponto turístico, o mercado permanece como um retrato da força dos pequenos negócios maranhenses. Um espaço onde tradição, empreendedorismo e identidade cultural continuam sendo servidos, todos os dias, em cada garrafa colocada sobre o balcão.
Para comerciantes como Seu Corintiano e Júlio César, manter as portas abertas significa mais do que preservar um negócio familiar. Significa garantir que histórias, sabores e conhecimentos construídos ao longo de décadas continuem circulando entre moradores e visitantes.
No Mercado das Tulhas, cada garrafa vendida representa uma conexão entre passado e presente. E, ao mesmo tempo em que preserva tradições centenárias, ajuda a sustentar pequenos empreendedores que fazem da cultura maranhense uma fonte de renda, identidade e resistência.
Ficou curioso sobre o Mercado das Tulhas? A Rádio Híbrida te convida a conhecer esse espaço por meio da audição. Ouça a reportagem imersiva “Casa das Tulhas e suas miscelânia de sons” da jornalista Ana Luíza Lopes da Cruz.
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